top of page
E002_IMG_20220530_110011_164.jpg
Foto - Adriano.jpg

Adriano B. Espíndola Santos 
É natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, e em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, estes pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. 

PEDAÇOS ABANDONADOS

Ela tinha uma espada na boca. Saía por aí ceifando vidas e sonhos. Nunca olhou para trás para recolher os pedaços abandonados. Essa era a minha avó, que, por azar, foi morar um tempo conosco. Depois que meu tio Assis, que morava com ela, faleceu, de causas desconhecidas – porém cogitadas por nós –, segundo meu pai não havia opção: tínhamos de receber “muito bem” a “velha”. Mamãe entrou, pela trigésima vez, em depressão. Para ela, vovó a considerava inimiga; “Você nunca vai saber agradar o meu filho; é uma pomba sem fel, não fede, nem cheira”. Apática, mamãe “aceitava” as injúrias e ia remoer os bocados no banheiro, de onde escutávamos os seus choros doloridos. Papai afirmou que vovó morreria logo, que não precisávamos nos preocupar. Mas a velha era dura na queda, literalmente. Caiu duas vezes, quebrou a bacia e o fêmur, e o fardo ficou para a minha mãe. Ainda me lembro que mamãe tinha de banhá-la, na verdade asseá-la na cama, e as duas se contorciam de raiva, por terem de se aturar nessas circunstâncias. E mamãe tentava a todo instante tapar o nariz, porque a fedentina era grande; nós, as crianças, não suportávamos. Sei que mamãe deveria ser tratada como uma rainha, por resolver esses problemas que deveriam ser dos filhos da minha vó, que, no máximo, a procuravam uma vez por mês, e disso sempre saía uma briga. Fato é que ninguém a suportava. Perguntei ao meu pai, já grandinho, se minha avó sempre foi assim, amarga, rançosa. Ele me respondeu que, depois do seu parto, ela passou três dias zanzando na casa de parentes, para não o ver; “daí você tira, meu filho”. Papai tentava compensar as dores de mamãe comprando bijuterias e bombons finos de chocolate. Mas, claro, nada pagava aquele abuso; o inferno seria melhor. Com dez anos, no dia seguinte ao meu aniversário, vovó teve um esmorecimento repentino. Papai estava alegre, como se tivesse chegado o grande dia. Mamãe estava aflita, esperançosa no olhar – ela não desejava a morte nem de uma formiga, contudo, se o destino a ajudasse, não reclamaria, percebi. Os dias que se seguiram foram de agonia. A velha cagava o dia todo, estava anêmica e fria como uma jia. Papai decretou que não adiantava levá-la ao médico, porque dessa ela não passaria. Fomos todos favoráveis a sua decisão. Mamãe, besta que era, foi a única a dar pitaco, para que levasse a moribunda ao hospital; mas depois entendi que ela queria se livrar do cheiro de carniça. De fato foi; meu pai concordou e levou-a a um hospital público – que prestava um bom atendimento, no entanto vivia lotado. A velha não chegou sequer a ser avaliada, morreu no corredor. Um médico assinou o laudo da morte, e decretou ser falência múltipla de órgãos, sem nem a tocar – entendemos o médico, não queríamos nos contaminar. Não precisaria dizer, o tempo depois foi de paz e bonança. A velha trazia a sua carga para nos enterrar, e a enterramos, felizmente. Mamãe, no dia da morte, rezou de joelhos, coisa que não fazia há tempos. Penso que ela agradecia a Deus o presente.

bottom of page